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Aparecida de Goiânia, Goiás, Brazil
Escritor, poeta, membro da ACADEMIA APARECIDENSE DE LETRAS e UNIÃO BRASILEIRA DE ESCRITORES EM GOIÁS.

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

O BEM ESTAR VEM DO HÁBITO



“De Médico e louco todo mundo tem um pouco”. Quando o assunto é saúde esse é um ditado popular que se ajusta à realidade da maioria das pessoas, inclusive eu. Saber o que se deve fazer para se ter o tão desejado “bem estar” é o lado de médico e não fazer é o lado da insanidade.
Nessa questão, definitivamente, não sou bom exemplo. Aos cinquenta anos e sedentário, minhas palavras ecoam no vazio, por isso não dou conselhos. Mas como divulgar saberes não é aconselhar, repasso o seguinte:
Prevenção. A palavra que fez a melhor parceria com a medicina nos últimos anos será a chave para ter saúde na próxima da década. As novas tecnologias de diagnóstico, desde que acompanhadas de mudanças de hábito, poderão salvar mis vidas que qualquer medicamento a ser descoberto. [...] Com prevenção, pode-se até não adicionar anos à vida, mas sim mais vida aos anos”, diz Haino Bumrmester, vice presidente da Associação Brsileira de Medicina Preventiva.
De acordo com um estudo feito no ano passado pelo Ministério da Saúde, a prevenção ainda não faz parte da vida do brasileiro. A maioria diz desconhecer a relação entre seus hábitos e as doenças mais comuns. Mesmo quem sabe dos riscos não costuma seguir o Manuel da vida saudável, com três instruções básicas: comer menos gordura e mais fibras, não fumar e praticar alguma atividade física. São as prevenções primárias, que por si sós reduzem significativamente o risco de desenvolver câncer e as doenças coronarianas – que vão continuar fazendo vítimas e massa na próxima década. [...] (Marta Mendonça, Época Especial, Nº 607, 04/01/2010 p. 46

Bem, como todo inicio de ano é época de propósitos, fica aqui registrado minha sincera intenção de escrever uma página diferente nesse assunto. Para o meu bem.

O CLAMOR DO SEXO* (O desejo pode ser uma fonte de alegria ou um peso intolerável)

Ivan Martins

Outro dia eu estava num show do Nando Reis, no Rio de Janeiro, e me percebi completamente hipnotizado por uma das cantoras da banda. Ela era baixinha, tinha pernas grossas e dançava como se o mundo fosse acabar. Assim que bati os olhos nela saí da mesa e arrumei um lugar embaixo do palco, em pé. A música rolava, as pessoas pulavam, mas eu não via mais nada que não fossem os cabelos crespos e o rosto redondo da moça. Uma viagem.
A perda parcial dos sentidos durou vários minutos, mas em algum momento a ficha caiu: eu estava bêbado, os amigos já tinham ido embora e a situação era ridícula. Tinha chegado a hora (passava da hora, aliás) de pegar minhas coisas e bater em retirada. Foi o que eu fiz.
Conto essa história irrelevante por uma única razão: ela fala sobre desejo. Ela lembra a existência de uma força antiga e poderosa com a qual nós todos, homens e mulheres, temos de lidar diariamente. Virar as costas para uma artista de minissaia que rebola no palco exige apenas bom senso. Em outras situações, domar o próprio desejo pode ser mais difícil.
Todos sabem, por experiência própria, que o sexo está presente em várias dimensões da nossa vida. Ele se infiltra nas relações de trabalho, constrói e destrói amizades, alimenta nossa sociabilidade e permeia - olha o Nelson Rodrigues - até as relações de família: quem já não teve a cunhada mais linda do mundo?
É difícil falar com propriedade sobre o comportamento das mulheres, mas na cultura dos homens brasileiros o sexo está por toda a parte, como o ar.
Os homens falam sobre isso, riem disso e (suponho que) pensam nisso obsessivamente. Há exceções, mas a regra é uma exibição mais ou menos orgulhosa da própria libido, com detalhes que variam com o bom gosto de quem fala e com o entusiasmo da audiência. Nesse assunto, aliás, o silêncio não é necessariamente sinal de sanidade. Já fui surpreendido por tipos que abrem a boca uma vez por ano para se revelarem tarados de hospício.
Qualquer que seja o estilo ou a personalidade do sujeito, a libido está lá. Ela pode virar piada, cantada ou ser reprimida na forma de trabalho, poesia ou silêncio. Mas a minha impressão é que se trata de um motorzinho que fica vibrando logo abaixo da nossa consciência, permanentemente. É uma fonte de energia e de alegria. Ou um peso desgraçado, a depender das circunstâncias.
Aprender a lidar com a pulsão do desejo é trabalho para a vida inteira. A meta - me parece - é encontrar o equilíbrio (precário) entre a enormidade do que se quer e a frugalidade do que é existencialmente possível. E não se trata de uma questão moral. Viver em sociedade exige reprimir impulsos. Ou enlouquecer. É um problema de ordem prática.
Você, leitor, não pode dizer tudo que passa pela sua cabeça quando a moça da recepção se inclina sobre o balcão. É tanto uma questão de educação quanto de sobrevivência social. E você, leitora, seria imprudente se revelasse em voz alta as fantasias sexuais inspiradas pelo jovem motoqueiro do escritório com cara de mau. Freud disse que sem repressão não há civilização. Ele obviamente não falava apenas de sexo, mas a frase ainda se aplica.
Minha geração acreditava ser possível acabar com a repressão. Todo mundo lia Wilhelm Reich e todo mundo achava que o capitalismo havia nos encarcerado em armaduras musculares (e morais) que impediam a nossa felicidade. O nosso orgasmo, mais precisamente. Era preciso derrubar as cercas mentais e fazer a revolução dos costumes. Junto com a revolução socialista, de preferência. Reich ficaria surpreso se visse tudo que aconteceu desde a sua morte, em 1957.
A revolução sexual foi tão bem sucedida quanto o rock and roll, mas disso não surgiu um "novo homem". Tampouco foram abolidos os limites que cerceiam a sexualidade e o comportamento. Embora existam minorias que vivem em grande liberdade, para a vasta maioria a revolução sexual apenas alargou a fronteira do possível. Os adolescentes de hoje fazem coisas que eu não podia (dormir com as garotas na casa delas, por exemplo), mas continuam submetidos a restrições sociais. É tarefa de cada geração empurrar a cerca um pouco mais para lá. Quanto maior o espaço, menor a infelicidade.
A propósito disso, tenho um amigo que viajou à Sibéria, na Rússia, e foi recebido na estação de trem por uma mulher que ele não conhecia. Linda. Era amiga de umas pessoas que ele havia conhecido dias antes, em Moscou. Ela o levou para a casa e, sem muitos preâmbulos, terminaram na cama. A moça era casada, mas isso, aparentemente, não constituía um problema. Fidelidade parece ser lá uma exigência menor do que é aqui. Provavelmente tem relação com religião (ou a ausência dela) e ideologia. De qualquer forma, o espaço para a libido é maior quando as pessoas não se importam tanto com o que fazem os parceiros. Questão de arranjos sociais.
Acabo de ler um livro sobre o festival de Woodstock (Aconteceu em Woodstock, de Elliot Tiber), sobre o festival de rock que ocorreu nas proximidades de Nova York em 1969. Movidas a drogas, música e ideologia hippie de paz e amor, as pessoas organizaram uma espécie de Sodoma e Gomorra a céu aberto. Sexo livre, sexo grupal, sexo homossexual, sexo tântrico, sexo público, sexo, sexo, sexo. Isso faz 40 anos e parece que ninguém saiu ferido. Quanto mais espaço para o desejo, menos conflito.
O que jamais será abolido, eu suponho, é o limite do outro: se ele não quer, o que se pode fazer? É difícil imaginar um mundo em que todo desejo seja correspondido. Ou que o ato de entregar-se seja tão banal que as pessoas possam praticá-lo sem restrições, por gentileza, como quem dá um tapinha nas costas.
Imagino que sempre vá existir um mercado do desejo em que algumas pessoas serão muito procuradas (por belas e sensuais ou poderosas) e outras estarão oferecendo sua atenção a um número bem menor de interessados. É injusto, mas é assim. O desejo é um sonho incansável que mora dentro de nós. O outro nos dá o limite da realidade.
No ano passado, no País Basco, eu conheci uma enfermeira de UTI. Ela tinha 50 anos e cuidava de pacientes terminais há duas décadas. De todas as coisas que ela me contou sobre o seu trabalho, me lembro especialmente de uma delas: mesmo os homens velhos e doentes ainda eram capazes de bulinar, com as palavras e com as mãos.
A enfermeira me disse que ria com gentileza das cantadas dos velhinhos e contava até três quando um deles punha a mão na bunda dela. Encenava um jogo de sedução que dava aos anciãos encurralados um pouco de alegria e esperança. Ela acreditava que lidar com o desejo dos pacientes, assim como lidar com as suas dores, era parte do seu trabalho. "O tesão só termina com a morte", ela me disse. Eu acredito.





*Clamor do Sexo é o título de um filme de 1961 que precisa ser visto. Ele mostra como era o tempo em que os jovens estavam proibidos de dar vazão aos seus impulsos sexuais. Assista.

Ivan Martins escreve às quartas-feiras http://revistaepoca.globo.com

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

LEIA TRECHO DE "CAIM", DE JOSÉ SARAMAGO.







Leia a seguir trecho do primeiro capítulo de "Caim", mais recente livro do escritor português José Saramago, publicado no Brasil pela editora Companhia das Letras.






Quando o senhor, também conhecido como deus, se apercebeu de que a adão e eva, perfeitos em tudo o que apresentavam à vista, não lhes saía uma palavra da boca nem emitiam ao menos um simples som primário que fosse, teve de ficar irritado consigo mesmo, uma vez que não havia mais ninguém no jardim do éden a quem pudesse responsabilizar pela gravíssima falta, quando os outros animais, produtos, todos eles, tal como os dois humanos, do faça-se divino, uns por meio de mugidos e rugidos, outros por roncos, chilreios, assobios e cacarejos, desfrutavam já de voz própria. Num acesso de ira, surpreendente em quem tudo poderia ter solucionado com outro rápido fiat, correu para o casal e, um após outro, sem contemplações, sem meias-medidas, enfiou-lhes a língua pela garganta abaixo. Dos escritos em que, ao longo dos tempos, vieram sendo consignados um pouco ao acaso os acontecimentos destas remotas épocas, quer de possível certificação canónica futura ou fruto de imaginações apócrifas e irremediavelmente heréticas, não se aclara a dúvida sobre que língua terá sido aquela, se o músculo flexível e húmido que se mexe e remexe na cavidade bucal e às vezes fora dela, ou a fala, também chamada idioma, de que o senhor lamentavelmente se havia esquecido e que ignoramos qual fosse, uma vez que dela não ficou o menor vestígio, nem ao menos um coração gravado na casca de uma árvore com uma legenda sentimental, qualquer coisa no género amo-te, eva. Como uma coisa, em princípio, não deveria ir sem a outra, é provável que um outro objectivo do violento empurrão dado pelo senhor às mudas línguas dos seus rebentos fosse pô-las em contacto com os mais profundos interiores do ser corporal, as chamadas incomodidades do ser, para que, no porvir, já com algum conhecimento de causa, pudessem falar da sua escura e labiríntica confusão a cuja janela, a boca, já começavam elas a assomar. Tudo pode ser. Evidentemente, por um escrúpulo de bom artífice que só lhe ficava bem, além de compensar com a devida humildade a anterior negligência, o senhor quis comprovar que o seu erro havia sido corrigido, e assim perguntou a adão, Tu, como te chamas, e o homem respondeu, Sou adão, teu primogénito, senhor. Depois, o criador virou-se para a mulher, E tu, como te chamas tu, Sou eva, senhor, a primeira dama, respondeu ela desnecessariamente, uma vez que não havia outra. Deu-se o senhor por satisfeito, despediu-se com um paternal Até logo, e foi à sua vida. Então, pela primeira vez, adão disse para eva, Vamos para a cama.
Set, o filho terceiro da família, só virá ao mundo cento e trinta anos depois, não porque a gravidez materna precisasse de tanto tempo para rematar a fabricação de um novo descendente, mas porque as gónadas do pai e da mãe, os testículos e o útero respectivamente, haviam tardado mais de um século a amadurecer e a desenvolver suficiente potência generativa. Há que dizer aos apressados que o fiat foi uma vez e nunca mais, que um homem e uma mulher não são máquinas de encher chouriços, as hormonas são coisa muito complicada, não se produzem assim do pé para a mão, não se encontram nas farmácias nem nos supermercados, há que dar tempo ao tempo. Antes de set tinham vindo ao mundo, com escassa diferença de tempo entre eles, primeiro caim edepois abel. O que não pode ser deixado sem imediata referência é o profundo aborrecimento que foram tantos anos sem vizinhos, sem distracções, sem uma criança gatinhando entre a cozinha e o salão, sem outras visitas que as do senhor, e mesmo essas pouquíssimas e breves, espaçadas por longos períodos de ausência, dez, quinze, vinte, cinquenta anos, imaginamos que pouco haverá faltado para que os solitários ocupantes do paraíso terrestre se vissem a si mesmos como uns pobres órfãos abandonados na floresta do universo, ainda que não tivessem sido capazes de explicar o que fosse isso de órfãos e abandonos. É verdade que dia sim, dia não, e este não com altíssima frequência também sim, adão dizia a eva, Vamos para a cama, mas a rotina conjugal, agravada, no caso destes dois, pela nula variedade nas posturas por falta de experiência, já então se demonstrou tão destrutiva como uma invasão de carunchos a roer a trave da casa. Por fora, salvo alguns pozinhos que vão escorrendo aqui e ali de minúsculos orifícios, o atentado mal se percebe, mas lá por dentro a procissão é outra, não tardará muito que venha por aí abaixo o que tão firme havia parecido. Em situações como esta, há quem defenda que o nascimento de um filho pode ter efeitos reanimadores, senão da libido, que é obra de químicas muito mais complexas que aprender a mudar uma fralda, ao menos dos sentimentos, o que, reconheça-se, já não é pequeno ganho. Quanto ao senhor e às suas esporádicas visitas, a primeira foi para ver se adão e eva haviam tido problemas com a instalação doméstica, a segunda para saber se tinham beneficiado alguma coisa da experiência da vida campestre e a terceira para avisar que tão cedo não esperava voltar, pois tinha de fazer a ronda pelos outros paraísos existentes no espaço celeste. De facto, só viria a aparecer muito mais tarde, em data de que não ficou registo, para expulsar o infeliz casal do jardim do éden pelo crime nefando de terem comido do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal. Este episódio, que deu origem à primeira definição de um até aí ignorado pecado original, nunca ficou bem explicado. Em primeiro lugar, mesmo a inteligência mais rudimentar não teria qualquer dificuldade em compreender que estar informado sempre será preferívela desconhecer, mormente em matérias tão delicadas como são estas do bem e do mal, nas quais qualquer um se arrisca, sem dar por isso, a uma condenação eterna num inferno que então ainda estava por inventar. Em segundo lugar, brada aos céus a imprevidência do senhor, que se realmente não queria que lhe comessem do tal fruto, remédio fácil teria, bastaria não ter plantado a árvore, ou ir pô-la noutro sítio, ou rodeá-la por uma cerca de arame farpado. E, em terceiro lugar, não foi por terem desobedecido à ordem de deus que adão e eva descobriram que estavam nus. Nuzinhos, em pelota estreme, já eles andavam quando iam para a cama, e se o senhor nunca havia reparado em tão evidente falta de pudor, a culpa era da sua cegueira de progenitor, a tal, pelos vistos incurável, que nos impede de ver que os nossos filhos, no fim de contas, são tão bons ou tão maus como os demais.
Ponto de ordem à mesa. Antes de prosseguirmos com esta instrutiva e definitiva história de caim a que, com nunca visto atrevimento, metemos ombros, talvez seja aconselhável, para que o leitor não se veja confundido por segunda vez com anacrónicos pesos e medidas, introduzir algum critério na cronologia dos acontecimentos. Assim faremos, pois, começando por esclarecer alguma maliciosa dúvida por aí levantada sobre se adão ainda seria competente para fazer um filho aos cento e trinta anos de idade. À primeira vista, não, se nos ativermos apenas aos índices de fertilidade dos tempos modernos, mas esses cento e trinta anos, naquela infância do mundo, pouco mais teriam representado que uma simples e vigorosa adolescência que até o mais precoce dos casanovas desejaria para si. Além disso, convém lembrar que adão viveu até aos novecentos e trinta anos, pouco lhe faltando, portanto, para morrer afogado no dilúvio universal, pois finou-se em dias da vida de lamec, o pai de noé, futuro construtor da arca. Logo, teve tempo e vagar para fazer os filhos que fez e muitos mais se estivesse para aí virado. Como já dissemos, o segundo, o que viria depois de caim, foi abel, um moço aloirado, de boa figura, que, depois de ter sido objecto das melhores provas de estima do senhor, acabou da pior forma. Ao terceiro, como também ficou dito, chamaram-lhe set, mas esse não entrará na narrativa que vamos compondo passo a passo com melindres de historiador, por isso aqui o deixamos, só um nome e nada mais. Há quem afirme que foi na cabeça dele que nasceu a ideia de criar uma religião, mas desses delicados assuntos já nos ocupámos avonde no passado, com recriminável ligeireza na opinião de alguns peritos, e em termos que muito provavelmente só virão a prejudicar-nos nas alegações do juízo final quando, quer por excesso quer por defeito, todas as almas forem condenadas. Agora somente nos interessa a família de que o papá adão é cabeça, e que má cabeça foi ela, pois não vemos como chamar-lhe doutra maneira, já que bastou trazer-lhe a mulher o proibido fruto do conhecimento do bem e do mal para que o inconsequente primeiro dos patriarcas, depois de se fazer rogado, em verdade mais por comprazer consigo mesmo que por real convicção, se tivesse engasgado com ele, deixando-nos a nós, homens, para sempre marcados por esse irritante pedaço de maçã que não sobe nem desce. Também não falta quem diga que se adão não chegou a engolir de todo o fruto fatal foi porque o senhor lhes apareceu de repente a querer saber o que se tinha passado ali. Já agora, e antes que se nos esqueça de vez ou o prosseguimento do relato venha a tornar inadequada, por tardia, a referência, revelaremos a visita sigilosa, meio clandestina, que o senhor fez ao jardim do éden numa cálida noite de verão. Como de costume, adão e eva dormiam nus, um ao lado do outro, sem tocar-se, imagem edificante mas enganadora da mais perfeita das inocências. Não despertaram eles e o senhor não os despertou. O que ali o tinha levado fora o propósito de emendar uma imperfeição de fabrico que, finalmente o percebera, desfeava seriamente as suas criaturas, e que era, imagine-se, a falta de um umbigo. A superfície esbranquiçada da pele dos seus bebés, que o suave sol do paraíso não conseguira tostar, mostrava-se demasiado nua, demasiado oferecida, de certo modo obscena, se a palavra já existisse então. Sem detença, não fossem eles acordar, deus estendeu o braço e, levemente, premiu com a ponta do dedo indicador o ventre de adão, logo fez um rápido movimento de rotação e o umbigo apareceu. A mesma operação, praticada a seguir em eva, deu resultados similares, ainda que com a importante diferença de o umbigo dela ter saído bastante melhorado no que toca a desenho, contornos e delicadeza de pregas. Foi esta a última vez que o senhor olhou uma obra sua e achou que estava bem.
Cinquenta anos e um dia depois desta afortunada intervenção cirúrgica com a qual se iniciaria uma nova era na estética do corpo humano sob o lema consensual de que tudo nele é melhorável, deu-se a catástrofe. Anunciado por um estrondo de trovão, o senhor fez-se presente. Vinha trajado de maneira diferente da habitual, segundo aquilo que seria, talvez, a nova moda imperial do céu, com uma coroa tripla na cabeça e empunhando o ceptro como um cacete. Eu sou o senhor, gritou, eu sou aquele que é. O jardim do éden caiu em silêncio mortal, não se ouvia nem o zumbido de uma vespa, nem o ladrar de um cão, nem um pio de ave, nem um bramido de elefante. Apenas uma bandada de estorninhos que se havia acomodado numa oliveira frondosa que vinha dos tempos da fundação do jardim levantou voo num só impulso, e eram centenas, para não dizer milhares, que quase obscureceram o céu. Quem desobedeceu às minhas ordens, quem foi pelo fruto da minha árvore, perguntou deus, dirigindo directamente a adão um olhar coruscante, palavra desusada mas expressiva como as que mais o forem. Desesperado, o pobre homem tentou, sem resultado, tragar o bocado de maçã que o delatava, mas a voz não lhe saiu, nem para trás nem para diante. Responde, tornou a voz colérica do senhor, ao mesmo tempo que brandia ameaçadoramente o ceptro. Fazendo das tripas coração, consciente do feio que era pôr as culpas em outrem, adão disse, A mulher que tu me deste paraviver comigo é que me deu do fruto dessa árvore e eu comi. Revolveu-se o senhor contra a mulher e perguntou, Que fizeste tu, desgraçada, e ela respondeu, A serpente enganou-me e eu comi, Falsa, mentirosa, não há serpentes no paraíso, Senhor, eu não disse que haja serpentes no paraíso, mas digo sim que tive um sonho em que me apareceu uma serpente, e ela disse-me, Com que então o senhor proibiu-vos de comerem do fruto de todas as árvores do jardim, e eu respondi que não era verdade, que só não podíamos comer do fruto da árvore que está no meio do paraíso e que morreríamos se tocássemos nele, As serpentes não falam, quando muito silvam, disse o senhor, A do meu sonho falou, E que mais disse ela, pode-se saber, perguntou o senhor, esforçando-se por imprimir às palavras um tom escarninho nada de acordo com a dignidade celestial da indumentária, A serpente disse que não teríamos que morrer, Ah, sim, a ironia do senhor era cada vez mais evidente, pelos vistos, essa serpente julga saber mais do que eu, Foi o que eu sonhei, senhor, que não querias que comêssemos do fruto porque abriríamos os olhos e ficaríamos a conhecer o mal e o bem como tu os conheces, senhor, E que fizeste, mulher perdida, mulher leviana, quando despertaste de tão bonito sonho, Fui à árvore, comi do fruto e levei-o a adão, que comeu também, Ficou-me aqui, disse adão, tocando na garganta, Muito bem, disse o senhor, já que assim o quiseram, assim o vão ter, a partir de agora acabou-se-lhes a boa vida, tu, eva, não só sofrerás todos os incómodos da gravidez, incluindo os enjoos, como pariráscom dores, e não obstante sentirás atracção pelo teu homem, e ele mandará em ti, Pobre eva, começas mal, triste destino vai ser o teu, disse eva, Devias tê-lo pensado antes, e quanto à tua pessoa, adão, a terra ficou amaldiçoada por tua causa, e será com grande sacrifício que dela conseguirás tirar alimento durante toda a tua vida, só produzirá espinhos e cardos, e tu terás de comer a erva que cresce no campo, só à custa de muitas bagas de suor conseguirás arranjar o necessário para comer, até que um dia te venhas a transformar de novo em terra, pois dela foste formado, na verdade, mísero adão, tu és pó e ao pó um dia tornarás. Dito isto, o senhor fez aparecer umas quantas peles de animais para tapar a nudez de adão e eva, os quais piscaram os olhos um ao outro em sinal de cumplicidade, pois desde o primeiro dia souberam que estavam nus e disso bem se haviam aproveitado. Disse então o senhor, Tendo conhecido o bem e o mal, o homem tornou-se semelhante a um deus, agora só me faltaria que fosses colher também do fruto da árvore da vida para dele comeres e viveres para sempre, não faltaria mais, dois deuses num universo, por isso te expulso a ti e a tua mulher deste jardim do éden, a cuja porta colocarei de guarda um querubim armado com uma espada de fogo, o qual não deixará entrar ninguém, e agora vão-se embora, saiam daqui, não vos quero ver nunca mais na minha frente. Carregando sobre os ombros as fedorentas peles, bamboleando-se sobre as pernas trôpegas, adão e eva pareciam dois orangotangos que pela primeira vez se tivessem posto de pé. Fora do jardim do éden a terra era árida, inóspita, o senhor não tinha exagerado quando ameaçou adão com espinhos e cardos. Tal como também havia dito, acabara-se a boa vida.




http://entretenimento.uol.com.br/ultnot/livros/resenhas/2010/01/03/ult5668u131.jhtm

 

sábado, 2 de janeiro de 2010

FLAGRA: BÓRIS CASOY OFENDE GARIS EM TELEJORNAL DA BAND



O apresentador de Telejornal da Band TV, Bóris Casoy, ao vivo, em vazamento de áudio, ao assistir dois garis desejaram "Feliz 2010" aos telespectadores, deixou escapar a lamentável expressão: "Que merda, dois garis desejando felicidades [...] do alto de suas vassouras (risos) [...] o mais baixo da escala do trabalho". Considerando que esses atos falhos, às vezes, representam o que carregamos no coração, ao apresentador, por quem "tinha" o maior respeito, apenas digo, "ISSO É UMA VERGONHA".  

Link dos vídeos. logo abaixo.

http://www.youtube.com/watch?v=U6SFqhYVmaE

http://www.youtube.com/watch?v=TA54NYpkgto