Nascido na véspera do futuro, De que me adianta o brilho Néon do engano Se não consigo evitar a calvície De meus sonhos? Das cavernas, A angústia me consome. Da pedra lascada À Internet, Nada mudou. Nos cromossomos Somos os mesmos: Pânico diluído nos gens. Se a cabala fala, O que me cala é o medo Que meço a polegadas No tic-tac de meus dias.
Quem sou eu
- Poeta almaquio
- Aparecida de Goiânia, Goiás, Brazil
- Escritor, poeta, membro da ACADEMIA APARECIDENSE DE LETRAS e UNIÃO BRASILEIRA DE ESCRITORES EM GOIÁS.
terça-feira, 13 de março de 2012
terça-feira, 6 de março de 2012
sábado, 3 de dezembro de 2011
EU E MINHAS CRÔNICAS
Alfredo Bastos Sousa, meu tio,
presenteou-me com um exemplar do livro EU E MINHAS CRÔNICAS, de sua autoria,
publicado em setembro último pela Editora e Gráfica Ligabe, Vargem Grande do
Sul, São Paulo, onde reside.
Eu e minhas crônicas é um
livro de 128 páginas que reúne textos simples, escritos em prosa (contos e
crônicas) e também em versos, dispostos aleatoriamente ao longo da obra.
A temática versa sobre assuntos
variados, muitos deles escritos na primeira pessoa e com clara evidência
autobiográfica. Esse aspecto autobiográfico é bastante nítido quando autor,
consciente de que sua vida tem mais passado que futuro, manda recado aos
leitores, como pode ser visto no texto cujo título é Sem título: “Apresso-me
a escrever, pois meu fim está próximo. Espero que algum de meus pobres poemas,
ou algum de meus contos possa servir de inspiração ou de algum proveito para
algum leitor. (…) Muitos de meus escritos foram acontecimentos verdadeiros,
presenciados e vividos por mim (…) Sempre gostei de escrever, e lamento não ter
começado há mais tempo”.
Receber este livro provocou em
mim dois sentimentos distintos e contraditórios. O primeiro sentimento foi
alegria. Sempre me alegra saber que a arte, sobretudo a literatura, é voz
e instrumento de manifestação de
sentimento de alguém.
Escrevo desde a
adolescência e hoje, aos cinquenta e dois anos de idade, mais do que nunca,
valorizo a capacidade de comunicação que a palavra escrita carrega em seu lombo
semântico. A angústia de Fernando Pessoa transcendendo o tempo em Tabacaria é exemplo inconteste do que
acabo de afirmar.
O outro sentimento que o livro
provocou, ao contrário ao primeiro, é melancolia. Primeiramente porque as
reflexões em torno da aproximação da morte feitas pelo autor de Eu e minhas
crônicas, guardadas as devidas proporções, também são feitas por mim. Por
isso escrevo sobre a vida, mesmo quando falo da morte.
Em segundo lugar, a
melancolia se instala em decorrência de um tema que tem ganhado força: a morte
do livro. Não a morte do livro Eu e minhas crônicas, que acabei de
receber, tampouco dos quatro que já publiquei. Falo, de maneira geral, da morte
do livro impresso, feito de papel e tinta, aquele que colocamos na cabeceira da
cama para releituras ou na biblioteca, onde ele aguarda alguém que queira
viajar no tempo e no espaço por meio da leitura.
O e-book, conhecido no
bom e velho português como livro digital já é realidade e,
gradativamente, ganha adeptos.
Considero fantástica a
possibilidade de ter acesso a uma obra literária a partir de um simples download
e, por exemplo, viajar pelo mar português, seja no Smartphone ou tablet, lendo Mensagem
de Fernando Pessoa. Esse conforto fica ainda mais impressionante porque, além
de Pessoa, sei que posso carregar Shakespeare, Homero, a Bíblia, o alcorão e
centenas de outros títulos e autores, tudo bolso.
Considerando que
futuro do livro não é tema que se esgota com argumentações simplistas, nem cabe
ser debatido neste curto espaço, encerro a provocação tomando nas mãos o
presente que acabo de receber. Olho novamente a capa, a contracapa e folheio,
aleatoriamente, o livro até que me salta aos olhos o primeiro verso do poema Inspiração:
Eu monto em
meu cavalo alado
Vou pelos
ares até a fonte Hipocrene
Beber a
inspiração poética que me refulge
Fazer meus
versos que me eleva aos ares.
Fecho o livro com um sorriso
nos lábios, na certeza que, mais uma vez o papel da poesia foi cumprido. Eu
e minhas crônicas é um eco de resistência, uma voz que insiste em gritar às
pessoas-leitores sobre a importância de compreender o significado de Carpe
diem.
Qual é o futuro do livro ?
Renato Sabbatini
Quem vai ganhar a competição ? O meio digital ou o meio impresso ? Ou será que eles não competem entre si, mas sim se complementam ?Perguntas como essas estão começando a deixar os editores de livros muito preocupados. A penetração das formas digitais de livros ainda é muito pequena. Basta visitar uma livraria e ver quantos títulos de livros existem em papel e quantos em CD-ROM. A maioria dos CDs são obras de referência e consulta, tais como enciclopédias e bancos de dados; ou programas de informação e aprendizado que se baseiam fortemente em tecnologias interativas. São muito poucos os romances e livros especializados publicados em CD, por um motivo bastante óbvio: é muito chato ler um livro no computador (e sai muito caro imprimi-lo em papel antes de ler). Nove entre dez pessoas não gosta e não quer ler coisas extensas na tela.
A coisa não é muito diferente com relação à Internet (pior, pois ficar on-line custa impulso telefônico e taxas do provedor, ou seja, mesmo que o livro seja de graça, você está pagando para lê-lo). A Internet tem sido um ótimo exemplo de como os meios impressos e eletrônicos se complementam. Atualmente existem milhares ou dezenas de milhares de livros com texto completo disponíveis na Internet. Devido à problemas de copyright, a maioria dos textos é de autores clássicos, cujos direitos de cópia já estão vencidos. Por exemplo, é muito fácil achar na Internet o texto completo de qualquer um dos romances de Sir Arthur Conan Doyle, a Bíblia, textos romanos e gregos clássicos, etc. Servidores como o do Projeto Gutenberg, que tem centenas de colaboradores digitando livros sem copyright e colocando-os na Internet, são um ótimo recurso. Mas tente achar o texto do último livro do Sidney Sheldon ou mesmo de autores não tão recentes, como Hemingway. Não vai achar, pois eles ainda rendem dinheiro.
O que está acontecendo de muito curioso é como a Internet está servindo para vender cada vez mais livros em papel. As livrarias on-line já são um enorme sucesso. A mais conhecida, a Amazon, tem 2,5 milhões de títulos, e vende por preços bem abaixo do praticado nas livrarias (há descontos de até 88 %). Diz-se que já está faturando algo em torno dos 100 milhões de dólares por ano. A sua equivalente nacional, que também vem obtendo boas vendas, é a BookNet. O mercado on-line é tão apetitoso, que a maior livraria (física) do planeta, a americana Barnes & Nobles, que tem mais de 700 lojas, e vende há muito tempo pelo correio, também abriu o seu gigantesco site na WWW, embora com menos títulos que a Amazon (1 milhão). Ela montou uma estratégia de marketing multimilionária, que tem como objetivo se tornar a primeira do mundo na Internet. Recentemente, por exemplo, fechou um contrato com a maior provedora de acesso à Internet, a America On Line (AOL), de 40 milhões de dólares, para se tornar a livraria on-line exclusiva da AOL no seu concorrido shopping virtual. A Amazon e as outras perdem de imediato uma boa parte de um mercado formado por 10 milhões de consumidores potenciais, o que não é pouca coisa.
O último capítulo da luta é muito criativo. Nos mecanismos de busca, tipo Altavista, e catálogos, tipo Yahoo! existe um "link" na página de resultados para você procurar livros sobre o mesmo assunto na livraria da Amazon. E várias livrarias, como a BookNet, estão oferecendo comissões de vendas para quem colocar "links" para suas páginas e que levem à venda de livros recomendados.
Atualmente, os livros vendidos pelas livrarias virtuais ainda são entregues pelo correio. Será que no futuro eles poderão ser descarregados pela Internet ? Não existe nada na tecnologia que impeça isso (aliás, já está ocorrendo em muitos lugares. Visite, para ver um exemplo fascinante, o site da National Academy Press. O modelo econômico é que não se sabe se dá certo.
E as bibliotecas ?
Portanto, o futuro do livro como meio de transmissão do conhecimento parece estar indubitavelmente ligado ao fator revolucionário representado pela Internet. A rede mundial de computadores colocou um elemento novo na equação que rege a indústria editorial, algo que não existia antes: a possibilidade de se ter um livro "virtual", ou seja, um produto abstrato, feito de bits e elétrons, ao invés de papel, tinta e cola. Esse livro pode ser distribuído instantaneamente para qualquer canto do planeta, sem necessidade de se fazer cópias, que é a essência da revolução anterior, que é a da imprensa de tipos móveis.Embora muitos intelectuais conservadores estejam resistindo à idéia de um mundo de idéias divorciado do livro impresso tradicional, acho que isso não tem mais volta. Por muito tempo ainda, os dois mundos, o eletrônico e o impresso, vão coexistir, mas não tenho dúvidas de quem será o vencedor. O fator fundamental não será tanto as vantagens relativas das diferentes tecnologias de fazer livros, mas sim a reação dos consumidores com relação a duas coisas: como se comprarão os livros no futuro, e como eles serão armazenados e disponibilizados para os que não querem comprar.
Entra no jogo, então, o conceito de biblioteca, uma instituição tão antiga quanto o próprio livro. Como serão as bibliotecas do futuro, se todos os livros forem eletrônicos ? Elas terão razão de continuar a existir ? Qual será a função do bibliotecário, o classificador e guardião tradicional dos livros ?
Naturalmente, muitos países estão começando a estudar esses aspectos e desenvolver novos papéis e estratégias para a biblioteca do futuro. Há muito tempo as bibliotecas vem se automatizando, usando computadores para cadastrar livros ("tombar", no jargão da biblioteconomia), controlar sua entrada, saída e devolução pelos leitores, e disponibilizar sistemas de busca por título, autor, palavras-chave, etc. Nos países mais avançados, é praticamente impossível achar bibliotecas em que a sala de leituras não esteja repleta de computadores e terminais para utilização dos leitores. Os gaveteiros com fichas já são coisas extintas em muitas bibliotecas, pois descobriu-se um fato muito relevante: se 15 a 20 % do acervo da biblioteca tem acesso informatizado, os leitores deixam de usar o fichário tradicional para procurar livros ! Em outras palavras, o retorno que eles obtêm da pesquisa informatizada, mesmo que acessando uma parte pequena do acervo, já é o suficiente para mudar o seu comportamento.
O passo seguinte das bibliotecas rumo à "virtualidade" foi o de disponibilizar os seus catálogos eletrônicos através da Internet. Na UNICAMP, por exemplo, o exemplar sistema de bibliotecas coordenado pela Profa. Leila Mercadante, há bastante tempo que qualquer usuário da Internet, interno ou externo, pode consultar o acervo de periódicos, livros, teses e monografias. Você mesmo pode tentar, caro leitor, acessando o endereço http://www.unicamp.br/bc/. O mesmo acontece hoje com milhares de bibliotecas em todo mundo, chegando à sofisticação de se informar se o livro que você procura está na prateleira, ou se foi retirado, e quando será devolvido ! As bibliotecas também têm se unido, formando "redes cooperativas", como é o caso das universidades paulistas, que produziram um catálogo coletivo de seus acervos, denominado UNIBIBLI, e que está disponível também em CD-ROM. Em nível nacional, existem vários outros projetos, como a rede de bibliotecas Antares, coordenada pelo Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia (IBICT), um órgão do CNPq, e o Grupo Temático sobre Bibliotecas Virtuais, do Comitê Gestor da Internet Brasil.
O passo seguinte já foi dado por muitas bibliotecas, também: é a construção de prateleiras "virtuais", onde se disponibiliza para os leitores (fisicamente presentes na biblioteca, ou em qualquer lugar, através da Internet) as revistas e livros que já existem em forma eletrônica. A maioria é gratuita, mas muitas têm assinaturas pagas, que a biblioteca faz, em nome de uma coletividade mais restrita. Para terminar a "virtualização" total da biblioteca, só falta um passo mais: converter todos os livros e revistas existentes em papel, para uma forma digitalizada, que permita sua distribuição através da rede.
Essa transição ainda é utópica para a maioria das bibliotecas, devido ao enorme custo e tempo necessário para o processo de conversão. A Biblioteca do Senado dos EUA tem experimentado com isso há várias décadas, mas uma fração muito pequena do seu acervo está disponível nessa forma. Mas parece ser o caminho do futuro.
Livros Digitais
Os computadores que temos hoje serão considerados máquinas ridiculamente primitivas, perto do que estará disponível na primeira década do próximo século. As pessoas que resistem à idéia de que a informação no futuro será disseminada de forma quase que totalmente eletrônica, substituindo os livros e revistas impressas, não têm capacidade de visualizar como a revolução da microinformática tornará isso possível. Neste artigo darei uma idéia para o leitores a respeito do que nos espera.Uma idéia interessante é de que os computadores serão tão compactos e baratos, que terão o formato e a portabilidade de um livro. Esses "livros eletrônicos" serão um lugar-comum dentro de poucos anos, constituindo um novo e poderoso fenômeno tecnológico no mundo das publicações. O pai da idéia da "biblioteca virtual portátil" é um pesquisador americano chamado Alan Kay, que no final da década dos 60s era um dos integrantes do Palo Alto Research Center (PARC) da Xerox Corporation, perto de Stanford, na Califórnia. As equipes do PARC foram as responsáveis praticamente por todas as idéias novas sobre computação interativa, tais como o mouse, os menus, as interfaces gráficas do tipo Windows ou Macintosh, etc.
Pois bem, Alan Kay escreveu um artigo fantástico, em 1968, no qual ele previu a existência, em cerca de 25 anos, de um computador tão compacto e portátil, que seria possível armazenar milhares de livros didáticos e científicos, ultracompactados em sua memória. A esse computador, que teria o aspecto e tamanho aproximados de um livro, e que não necessitaria o uso de teclado, Kay batizou de Dynabook (dos termos, em inglês, dynamic book, ou livro dinâmico). Kay concluiu que ele afetaria enormemente o acesso à informação, bem como a existência e o uso das bibliotecas e dos livros.
Exatamente 25 anos depois deste artigo, a Apple lançou a primeira geração de microcomputadores ultraportáteis, sem teclado, a que denominou de PDAs (personal digital assistants), e que são, em conceito, a coisa mais próxima possível do dynabook. Uma empresa americana chamada Franklin produz também livros eletrônicos compactos, do tamanho de uma agenda eletrônica pequena, que já permitem acesso simultâneo a até dois livros eletrônicos armazenados em módulos removíveis de 10 Mbytes de capacidade cada. Centenas de livros já foram lançados pela Franklin nesse formato. Na área médica, por exemplo, é possível ter-se um livro de Medicina Interna (Harrison) e um manual de referência com cerca de 10 mil medicamentos (o PDR), em um total de mais de 5 mil páginas on-line, por cerca de 350 dólares, com o computador incluído !
Deixando nossa imaginação à solta, é fácil prever que o dynabook poderá ser encadernado de acordo com o gosto do freguês, em couro marroquino, por exemplo, com filigranas de ouro e ex-libris personalizado e até com cheiro sintético de papel, tinta fresquinha e naftalina (se quiser...). A visualização das páginas abertas do livro seriam mimetizadas através de duas telas de cristal líquido super-alvura, com caracteres de alta resolução, de tal forma que o usuário teria uma impressão absolutamente perfeita de estar lendo páginas deum livro impresso. A única diferença seria que para "virar" as páginas ele precisaria pressionar a ponta do dedo num dos cantos da página. Até o barulhinho de uma página virando o computador imitaria !
Para que tudo isso ? Simplesmente para preservar a experiência sensorial e estética do livro impresso, tornando o livro eletrônico mais aceitável, por se encaixar em um modelo conhecido e apreciado há séculos. A grande vantagem é que uma pessoa que tem uma biblioteca grande (é o meu caso, com mais de 2000 livros impressos) poderia substituí-la por um único "livro universal", que poderá ser carregado na maleta ou debaixo do braço para qualquer lugar (inclusive para o banheiro, a cama, ou a rede na varanda da casa de praia, sem necessidade de tomadas elétricas por perto). Conectado através de ondas de rádio à Internet, o dynabook poderá dar ainda acesso a milhões de outros livros e revistas, de forma praticamente instantânea, carregando uma verdadeira Biblioteca do Congresso dos EUA.
Quem viver, verá !
Publicado em: Jornal Correio Popular, Campinas, 6/1/98, 20/1/98 e 9/2/98.
Autor: Email: sabbatin@nib.unicamp.br
WWW: http://home.nib.unicamp.br/~sabbatin Jornal: http://www.cpopular.com.br
Copyright © 1998 Correio Popular, Campinas, Brazil
quinta-feira, 1 de dezembro de 2011
DIÁLOGO COM PENÉLOPE
Eu, Odisseu tupiniquim, a deriva em mares imaginários,
Leio ígneos mistérios em tua orquídea de Penélope indomável.
Cada metáfora colhida nas túmidas pétalas de seu jardim secreto -
Ítaca dos meus devaneios - faz quedar-me embevecido ao
Lembrar o irresistível canto das sereias que
Eleva o mastro a que me amarro.
Na ânsia de singrar nas águas de teus segredos,
Escuto, em silêncio, as peripécias da arte de tecer delícias.
segunda-feira, 31 de outubro de 2011
Um olhar estrangeiro sobre Clara Dawn e suas crônicas publicadas no DM-Revista
Segundo a professora e crítica literária *Fátima Santana
A recepção da literatura brasileira no exterior tem sido estudada no mundo acadêmico, mas ainda é um assunto pouco divulgado. Há poucas publicações que analisam a maneira como os autores brasileiros são lidos fora de seu local de produção.
Eu acabo de ser jubilada pela FLUC – Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, onde trabalhei por mais de três décadas. O jubileu não é espantoso quanto pensa os parceiros do oficio de educar. Não quando se pode voltar à terra natal e contemplá-la na magnitude de ações culturais, especialmente da literatura. Literatura, meu material de vivência e estudo de uma vida inteira. Literatura: jamais me canso de ti!
E é por razão de nunca me cansar que estou sempre recebendo presentes: livros, evidentemente. Dezenas chegam pelos correios, outros tantos me são regalados por amigos e parentes. Não preciso comprar-los, os livros me chegam a mim. Foi num desses tantos, que recebi, o ano passado, “Alétheia” de Clara Dawn. Li, gostei, esqueci. E esse ano dentre muitos outros que me foram regalados, recebo “Sofia búlgara e o tabuleiro da morte” também da, esquecida (por mim), Clara Dawn. Li, gostei, me incomodou, pois eu já acompanhava as crônicas semanais de Clara no DM - Online e por gostar muito, decidi, em poucas palavras, revelar a minha singela observação da obra “concreta e inacabada” de Clara Dawn e tentarei, por vez, dissertar na sintaxe do português brasileiro.
Clara Dawn desenvolveu um estilo literário ímpar. Com livros marcados por singularidades e inovações linguísticas, a escritora se encaixa a lista dos que incorporaram traços inéditos à literatura brasileira produzida em Goiás.
A ficção claradawniana se concentra nas regiões mais profundas do inconsciente, ficando em segundo plano o meio externo, pois quase tudo se resume à mente das próprias personagens. Portanto, Clara Dawn é o nome de uma tendência intimista a literatura escrita em Goiás. O ser, o estar no mundo, o intimismo formam o eixo principal de questionamentos tecidos em seus textos introspectivos de prosa-poética. Não centra sua obra no social, no romance engajado, mas sim no indivíduo e suas mais íntimas aflições, reproduzindo pensamentos das personagens.
Artifício largamente utilizado por James Joyce, Proust e, sobretudo, Virgínia Woolf. O fluxo da consciência marca indelevelmente a literatura de Clara Dawn. Tal aspecto consiste em explorar a temática psicológica de modo tão profundo que o assunto nunca é completamente explorado, ou seja, as diversas possibilidades de análise psicológicas e a complexividade da temática contribuem para a inesgotabilidade do assunto. O fluxo da consciência indefine as fronteiras entre a voz do narrador e a das personagens, de modo que reminiscências, desejos, falas e ações se misturam na narrativa num jorro desarticulado, descontínuo que tem essa desordem representada por uma estrutura sintática caótica. Assim, o pensamento simplesmente flui livremente, pois as personagens não pensam de maneira ordenada, mas sim de maneira conturbada e desconexa. Portanto, é a espontaneidade da representação do pensamento das personagens que caracteriza o caos de tal marca literária.
O monólogo interior é outro artifício utilizado por Clara Dawn que contribui para a construção da atmosfera introspectiva. Essa técnica consiste em reproduzir o pensamento da personagem que se dirige a si mesmo, ou seja, é como se o “eu” falasse pra si próprio. Registra-se, portanto, o mergulho no mundo interior da personagem, de suas crônicas, a “Neura” que revela suas próprias emoções, devaneios, impressões, dúvidas, enfim, sua verdade interior diante do contexto que lhe é posto.
Não se deve afirmar que Clara Dawn seja a pioneira no emprego da epifania na prosa/crônica da literatura de Goiás. “No sentido literário, a "epifania" é um momento privilegiado de revelação, quando acontece um evento ou incidente que "ilumina" a vida da personagem.” O que acontecia de modo peculiar e brilhante nas crônicas de Anatole Ramos e Marieta Telles. Anatole em "Fazendeiro que Dedurou os Bispos (1978)" com os flagrantes do cotidiano, os problemas, as alegrias, os protestos, os sonhos e as esperanças de todos nós e Marieta Telles Machado que era cronista por excelência, transitava pelas áreas da literatura epifânica nos anos de 1980. Não havia genialidade em ambos, eles não escreviam para a elite ou para a plebe, crônicas dirigida ou bitoladas. Apostavam na linguagem,simplesmente, compreensível para quem sabe ler, sem poses, sem afetação, pobre de hermenêutica, mas ricas de espiritualidade social.
Mas posso, assim, dizer que nos textos de Clara Dawn ela consegue impor genialismo a simplicidade e o seu objetivo maior é o momento da epifania: por meio de uma espécie de revelação (o que se dá por meio de um fato inusitado), a personagem descobre que vive num mundo absurdo, causando um desequilíbrio interior que, por sua vez, provocará uma mudança radical em sua vida ou não. Honestíssima, espirituosa, imaginosa e de raciocínio célebre, Clara salta num átimo de tempo de poetisa dos valores morais, de contador de histórias acriançadas a embaixadora da alegria e da surpresa. O fator surpresa é inevitável aos escritos de Clara Dawn
É também peculiaridade da autora a construção de textos inconclusos e outros desvios da sintaxe convencional, além da criação de alguns neologismos. Clara Dawn não adota o padrão da gramática normativa, pois tem na valorização da expressividade do texto a regra primordial de sua literatura. Assim, as frases não são feitas com o rigor gramatical e coerente, mas sim com o primor e o viço da expressão artística. Assim, podando os excessos e desconsiderando os modismos, Clara Dawn desponta entre os melhores escritores da literatura brasileira produzida em Goiás.
Clara Dawn tem uma significativa produção como cronista do Diário da Manhã - Goiânia. Reunidas no livro “Sofia búlgara e o tabuleiro da morte”, Kelps, Goiânia, 2011. Apesar desta particularidade da obra de Clara como cronista, nosso principal interesse neste trabalho é o fato de que, através dos estudos de suas crônicas reunidas é possível compreender como ocorre aquilo que a própria autora nomeia em “Os veios no barro de Manoel”, como um plágio de si mesma.
Para compreender este interessante processo de auto-plagiamento, meu principal alvo de observação são as crônicas publicadas no DM-Revista - Diário da Manhã que posteriormente foram reformuladas e reunidas em determinados livros de antologias e agora em “Sofia búlgara e tabuleiro da morte”. Há em todo este percurso não apenas alterações no que se refere ao veículo literário em que o texto se insere, mas também reformulações literárias de um texto para outro que indicam um inacabamento que, segundo o meu compreender, pode evidenciar um discurso de alma transparente, de quem não teme aprender, ao trabalho de polimento e despojamento das máscaras e dos mistérios de Clara em todas as suas versões de estilo.
Estudar estas crônicas da autora permite ver a sua obra literária em movimento na observação da trama em seu estado bruto, ainda em germinação e sem as mudanças que serão feitas pela autora. Para isto pretendo mapear as mudanças realizadas neste trajeto da crônica para o romance Alétheia e notar em quais histórias dentro da história, esta germinação/alteração pode ser encontrada e buscar compreender o que estas sentenças significam a síntese da obra de Clara Dawn. Ao observar as alterações feitas pela escritora entre o jornal e o romance Aletheia e do romance para as crônicas jornalísticas analiso não apenas a mudança de gênero – crônica/conto - como também as escolhas linguísticas e literárias que determinam o maior status literário tanto do romance em relação a crônica, quanto das crônicas e em relação ao romance. Sem dúvida alguma, Clara escreve crônicas como num ritual romântico e fez um romance cronicamente.
Esta análise visa caracterizar a obra de Clara como romancista/cronista a fim de determinar como a autora constrói este conjunto de textos. Desta forma, tento compreender os textos reunidos em “Sofia búlgara e tabuleiro da morte” não a fim de forjar uma definição para estas; mas para tentar delimitar os territórios por onde transita a Clara cronista e assim melhor compreender esta significativa, porém pouco estudada, autora. Definindo este material, compreendendo o lugar em que as crônicas que é o meu principal objetivo de pesquisa – as que são reescritas transformando-se em futuros contos/romances se inserem no mapa romancista/poético de Clara Dawn.
Observar as diferentes aceitações da crítica de uma Clara-cronista-poética e de uma Clara-romancista permite analisar como a noção de autoria interfere na compreensão da obra da escritora. Pensar no que Foucault chama de posição-autor no caso de Clara Dawn através de sua obra cronística pode auxiliar a compreender a leitura que é feita destes textos. Meu objetivo neste sentido seria analisar como funciona na recepção da obra desta autora o movimento caracterizado por Foucault em que o nome do autor assegura uma função classificativa e delimitadora de um conjunto de textos. Isto permite analisar de que forma o lugar que Clara ocupa para a crítica literária determina significativamente a leitura de suas crônicas e de seus romances também.
Antonio Francisco, angolano, tradutor e professor de francês que conheci por intermédio do Facebook, convidou-me a ler um artigo onde ele aborda a questão da recepção de Clara Dawn na França e Angola. Tema muito relevante, já que se sabe que Clara Dawn é uma escritora que tem devotos em vários países, sobretudo no mundo de língua francesa, espanhola e portuguesa.
Trata-se de um artigo escrito em português e francês que se lê com interesse e prazer porque é bem escrito, organizado, articulado. Além de demonstrar muita maturidade intelectual e humana, o autor analisa aspectos da obra de Clara Dawn, assim como algumas crônicas publicadas em francês. A recepção está fundamentalmente na análise literária e se encontra sobretudo no que trata da espiritualidade, e aborda as relações da literatura com as artes plásticas e a música formando um mosaico instigante as facetas da obra de Clara, sem perder a leveza de seu modo claradawniano de escrever.
O artigo em francês de Antonio Francisco é relevante para a recepção de Clara Dawn no exterior, pois foi através dos seminários de Antonio na Universidade de Paris que muitas pessoas tiveram acesso à obra da escritora brasileira/goiana
Embora o autor do artigo tenha algumas boas intuições sobre tradução, e sobretudo acerca da experiência de traduzir e assim traduz crônicas de Clara Dawn para o francês, lhe falta a capacidade literária de demonstrar o labor narrativo de Clara Dawn. Nada melhor do que ler e reler suas crônicas cruas, sem a revisional de uma edição e assim podemos descobrir uma autora em toda a singeleza de sua criação sólida e inacabada. Que Deus me dê vida para ver Clara erguendo tijolos, colunas e teto. Parabéns, Diário da Manhã por ter Clara Dawn como uma de suas cronistas!
*Fátima Santana é professora, jubilada, dos cursos de “História da Arte e Literatura da Língua Portuguesa” da FLUC – Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra – Portugal
Clara Dawn
Escritora: romancista, contista, cronista do Diário da Manhã - DM-Revista (pág 06) - Sempre às segundas-feiras e editora cultural da revista eletrônica da União Brasileira de Escritores de Goiás.
Site UBE: www.ubebr.com.br
Blog 1: http://claradawnescritora.blogspot.com/
Blog 2: http://twitter.com/claraescritora
Blog 3: http://www.facebook.com/home.php#!/
Site UBE: www.ubebr.com.br
Blog 1: http://claradawnescritora.blogspot.com/
Blog 2: http://twitter.com/claraescritora
Blog 3: http://www.facebook.com/home.php#!/
domingo, 16 de outubro de 2011
Rubem Alves, William Shakespeare e Almáquio Bastos
“Contei meus anos e descobri
Que terei menos tempo para viver do que já tive até agora....
Tenho muito mais passado do que futuro...
Sinto-me como aquele menino que recebeu uma bacia de jabuticabas...
As primeiras, ele chupou displicentemente..............
Mas, percebendo que faltam poucas, rói o caroço...
Já não tenho tempo para lidar com mediocridades...
Inquieto-me com os invejosos tentando destruir quem eles admiram.
Cobiçando seus lugares, talento e sorte.....
Já não tenho tempo para administrar melindres de pessoas
As pessoas não debatem conteúdo, apenas rótulos...
Meu tempo tornou-se escasso para debater rótulos...
Que terei menos tempo para viver do que já tive até agora....
Tenho muito mais passado do que futuro...
Sinto-me como aquele menino que recebeu uma bacia de jabuticabas...
As primeiras, ele chupou displicentemente..............
Mas, percebendo que faltam poucas, rói o caroço...
Já não tenho tempo para lidar com mediocridades...
Inquieto-me com os invejosos tentando destruir quem eles admiram.
Cobiçando seus lugares, talento e sorte.....
Já não tenho tempo para administrar melindres de pessoas
As pessoas não debatem conteúdo, apenas rótulos...
Meu tempo tornou-se escasso para debater rótulos...
Quero a essência.... Minha alma tem pressa....
Sem muitas jabuticabas na bacia
Quero viver ao lado de gente humana...muito humana...
Que não foge de sua mortalidade.
Caminhar perto de coisas e pessoas de verdade....
.....................................................................................................
.. O tempo é algo que não volta atrás.
Por isso plante seu jardim e decore sua alma,
Ao invés de esperar que alguém lhe traga flores ...
Por isso plante seu jardim e decore sua alma,
Ao invés de esperar que alguém lhe traga flores ...
......................................................................................................
FRÁGIL ESSÊNCIA
Se no fátuo acontecer
da brevidade humana
encantos e desencantos se misturam
no empilhar incógnito dos dias
é no canteiro desta metafísica dualidade
onde colhem os poetas
cachos maduros de poesia.
Sabendo-se que a cada amanhecer
a todos
tudo pode acontecer,
melhor cantar a beleza do abrir de uma flor
que descrever tristezas de vidas vazias.
Somos hóspedes do tempo
- Frágil essência -
Tolice guardar amor em celeiro.
Feliz quem abraça
e ri
e beija
e ama
como se vivesse o dia derradeiro.
Almáquio Bastos, in Sob o Signo de Eros, p. 19
Assinar:
Postagens (Atom)


