domingo, 20 de setembro de 2009

BARBINHAS RALAS E BIGODINHOS VERTICAIS


Quero ser feliz. Para isso, preciso de modelos. Há os livros de autoajuda, há a felicidade oficial da "mídia". Quero ser feliz e nas revistas vejo os ídolos modernos malhados, todos sedutores e comedores com a barbinha malfeita de propósito ("six o´clock shave") pegando as "modeletes" - todas rapadinhas com seus bigodinhos de Hitler no púbis (Brazilian wax). Barbinhas ralas e bigodinhos verticais são a última moda importada de NY para os garanhõezinhos e namoradas chiques.


Não estou criticando isso; estou é com inveja dessa ligeireza, tenho inveja da mediocridade dos objetivos. No Brasil de hoje, a burrice é uma bênção. Os homens-celebridades estão cada vez mais seguros de seus haréns, as mulheres mais belas. No entanto, velho romântico, penso: e a conversa de depois? Como manter aquela energia narcisista? Meu avô uma vez me gozou: "Quer namorada inteligente? Vai namorar o San Tiago Dantas... (intelectual da época)".


Quero ser feliz modernamente, mas carrego comigo lentidões, traumas, conflitos. Sinto-me aquém dos felizes de hoje. Não consigo me enquadrar nos rituais de prazer das revistas. Posso ter uma crise de depressão em meio a uma orgia...


Fui educado por jesuítas e pai severo, para quem o riso era um pecado; ensinaram-me que a felicidade era uma missão a ser cumprida, a conquista de algo maior, que nos coroasse de louros. A felicidade demandava sacrifício, uma luta sobre obstáculos. Olhando os retratos antigos, vemos que a felicidade masculina estava ligada à ideia de "dignidade", de vitória de um projeto de poder. Vemos os barbudos do século 19 de nariz empinado, os perfis de medalha, donos de um poder qualquer nem que fosse no lar, sobre a mulher e filhos aterrorizados.


Mas eu queria ser mais livre, menos vergado ao peso de tanta responsabilidade severa.


Por isso, quando cheguei aos 20 anos, meu ídolo passou a ser James Bond: bonito, corajoso, entendendo de vinhos e de aviões superssônicos, comendo todo mundo, de smoking. Ele era livre e mundano? Sim, mas mesmo James Bond se esforçava, pois tinha a missão de "salvar o mundo". Era um trabalhador incansável que merecia as louras que papava. Hoje, não. Nossos heróis masculinos não trabalham ou ostentam uma "allure" ociosa e cínica.


A mídia nos ensina que os heróis da felicidade não têm ideal algum a conquistar, a não ser eles mesmos. A felicidade é uma construção de bom funcionamento, de desempenho. O ideal de felicidade é o brilho do prazer sem conflitos, sem afetos profundos - todos sorridentes e simpáticos, porque é mais "comercial" ser alegre do que bancar os velhos heróis, que carregavam a dor do mundo. O herói feliz passa a ideia de que não precisa de ninguém. Para o herói da mídia, o mundo é um grande pudim a ser comido. Sem compromissos, ele quer sexo e amor, sem amar ninguém. Há um "donjuanismo" consentido, pois as mulheres não defendem mais virtudes castas - ao contrário, cada vez mais imitam o comportamento deles. Desejam ser "coisas" se amando. Assim como a mulher deseja ser um "avião", uma máquina peituda, bunduda, sexy, o homem também quer ser uma metralhadora, uma Ferrari, um torpedo inteligente e, mais que tudo, um grande pênis voador, superpotente, frívolo, que pousa e voa de novo, sem flacidez e sem angústias. O encontro humano virou um modelo de armar, um "lego" de carne. O herói macho A se encaixa em heroína fêmea B e produzem uma engrenagem C, repleta de luxo e arrepios entre lanchas e caipirinhas, entre jet skis e BMWs, num esfuziante casamento que dura, no máximo, três capas de "Caras".


E de tudo isso emana uma estranha "profundidade superficial" (desculpem o oxímoro), porque esse diletantismo raso tem o charme de ser uma sabedoria elegante e "contemporânea".


Meu homem é antes de tudo um forte, mas um negador. Para ser feliz, precisa negar, renegar problemas, esquecer, não lembrar das tristezas do mundo. Sua receita de felicidade: não pensar em doenças, ignorar o inconsciente, lamentar a miséria sem nada fazer por ela. O macho brasileiro tem pavor de ser possuído ou tomado pela fraqueza da paixão. Não há entrega; basta-lhe o encaixe.


Meu homem moderno almeja orgasmos longos, ereções vítreas sem trêmulas meias-bombas; meu homem feliz quer ser malhado e esportivo, se bem que informado e cínico; meu homem conhece bem as tragédias modernas, mas se lixa para elas, não por maldade, mas por um alegre desencanto.


Meu homem vive em velocidade. O mundo da internet, do celular, do mercado financeiro imprimiu seu ritmo nele, dando-lhe o glamour de um funcionamento sem corrosão, sem desgaste de material, uma eterna juventude que afasta a ideia de morte ou velhice. Felicidade é um videoclipe; angústia é Antonioni.


Assim, meu homem feliz é casado consigo mesmo.Mas, chega um dia em que o herói deprime, um dia em que a barriga cresce, o amargor torce-lhe os lábios, o "passaralho" cai, e o homem feliz percebe que também precisa de um ideal de encontro, de algo semelhante à tal velha felicidade.


Ele começa a perceber, confusamente, que a verdadeira solidão é apavorante. Daí, ele faz tudo para evitar a ideia de morte, de fim, senão sua liberdade ficaria insuportável.


Com a idade, ele percebe que não há apoteose na vida. Nada se fechará numa plenitude, nada se resolverá inteiramente.


Daí, ele passa a viver um paradoxo: ligar-se sem ligar-se. Ele percebe que precisa do amor ou do casamento ou de mais poder como uma "esperança de sentido".Aí, sua tentativa de felicidade fica "em rodízio", como em uma churrascaria: amor, poder, sexo. Em vez de se conformar com essa mutação sem finalidade, ele tenta satisfazer-se numa eterna insatisfação.Como um James Bond fracassado, como um Tom Cruise envelhecido que jamais perde a pose. Nem para si mesmo. E se gasta nessa "Missão Impossível".


Publicado no Jornal O POPULAR - Magazine ed. de 15/09/2009

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

REVOLUÇÃO SEXUAL


No átrio dos desejos,
Arena de indômitas vulvas,
Hímens desafiam homens.

Tombado o tabu no gineceu,
Mulheres meninas
Masturbam mentes masculinas
E antecipam o himeneu.

(A perseguida
Transformou-se e perseguidora
E com furor uterino
E gula bilabial
Rompeu um paradigma machista,
Corrigindo um equívoco cultural:
__Quem come quem?)

No podium, sob finíssima lingerie,
A flor deflorada,
ladeada por sensual
borboleta tatuada,
declara sem pudores,
que chegou o tempo das flores.


Sob o Signo de Eros, p. 75

domingo, 16 de agosto de 2009

O BELO SEXO DOS HOMENS


Em "O Belo Sexo dos Homens", filósofa narra redescoberta do corpo masculino


MARTA BARBOSA Colaboração para o UOL



Florence Ehnuel é o pseudônimo de uma filósofa e psicoterapeuta francesa ocupada em relacionar a filosofia à vida cotidiana. Professora bastante atuante em Paris, ela até já recebeu um prêmio da Académie Française, em 2004, por aplicar o que chamam filosofia moral. Não é, por assim dizer, uma mulher vazia, muito menos desocupada. E talvez ai esteja o ponto forte do seu livro "O Belo Sexo dos Homens" (tradução de Véra Lucia dos Reis, publicado no Brasil pela Objetiva).

Em "O Belo Sexo dos Homens", filósofa narra redescoberta do sexo masculino.
Bruna Surfistinha e Catherine Millet a parte, trata-se de um testemunho bastante detalhado da redescoberta do corpo masculino e o ressurgimento da própria sexualidade. Por volta dos 35 anos, Florence deixou o confortável espaço num casamento tradicional e se viu estimulada a viver aventuras amorosas. Não perdeu tempo.Dos encontros casuais, relatados com pouco romantismo no livro, mas com muito erotismo, Florence foi construindo um mosaico interessante de descobertas sobre o corpo masculino. Despertou, como ela própria faz questão de esclarecer, para as belezas do sexo, que não tem nada a ver com amor ou casamento, mas que se tornaram complementares na sua vida.A partir de suas próprias experiências, a autora vai liberando suas teses a respeito da sexualidade feminina. Aborda, por exemplo, a questão da poligamia em tempos modernos. Florence rejeita o sentido clássico de fidelidade. Desdenha qualquer relacionamento baseado no monopólio. "Parece que se apaixonar resulta em exclusividade, na concentração de toda a energia numa única pessoa", escreve. "Não sei por quê, mas eu diria que, para mim, é o oposto. Estar apaixonada por um homem me torna apaixonada por todos os lados."Da mesma forma, o ciúme é visto como alguma coisa no mínimo desnecessária. Justificado, no máximo, como uma reação espontânea, incontrolável algumas vezes. Mas como base de regra de vida, um sentimento sem sentido, alienante, para dizer o mínimo. A escritora se justifica usando uma comparação no mínimo inusitada: relaciona o homem a um pico dos Pireneus. "Acho-o esplendoroso e sonho em escalá-lo regularmente. Apesar desse entusiasmo, não gostaria que me dissessem que será a única e exclusiva caminhada que terei o direito de fazer na vida, ou até mesmo no próximo decênio."Mas não se engane. "O Belo Sexo dos Homens" não é um livro sobre a promiscuidade. Embora seja um relato capaz de deixar qual feminista de cabelo em pé, há um discurso social no testemunho de Florence. No fundo, parece o relato libertador de uma mulher que venceu a opressão sexual assumindo um papel de protagonista quando o assunto é sua própria sexualidade.A autora assume, por exemplo, certo prazer em ser frágil diante do homem. Diz que a força masculina é um ponto de atração na relação heterossexual, e que não há submissão alguma em ser carregada, cortejada, e tratada como um ser delicado no jogo da conquista. Também relata a observação do corpo como uma parte da relação sexual tão desejada quanto a penetração, ou o gozo. A escritora permite-se e defende o exibicionismo e o voyeurismo sem conotação patológica, mas sim como um estágio da intimidade, absolutamente necessário no espaço onde todo o desejo é permitido.Para dar crédito a suas teses sobre sexualidade feminina, Florence cita de Jean Renoir a Platão. Deriva do "Banquete", aliás, a lição de poligamia que a autora sustenta. "Platão ensina que o amor pelos belos corpos é o primeiro grau na ascensão para outros amores menos carnais e muito mais compensadores para a alma." Então tá.
"O BELO SEXO DOS HOMENS"Autor: Florence Ehnuel Tradução: Véra Lucia dos Reis Editora: ObjetivaNúmero de páginas: 112 Preço sugerido: R$ 39,90

http://entretenimento.uol.com.br/ultnot/livros/resenhas/2009/08/16/ult5668u114.jhtm

sábado, 15 de agosto de 2009

SEM MEDO DE MEDUSA




Meia dúzia de medusas
Não me assombrariam
Se nas sombrias sobras petrificadas
Vicejasse alguma poesia.

Narciso anão
Meu espelho
Seu rosto espelha

Incansavelmente
Contemplo a face amada
Na líquida lâmina espelhada.

Ser poeta é isto:
Admirar a musa
Ainda que medusa


BASTOS, Almáquio. Sob o signo de Eros, p. 67

Ilustrução capturada no site http://fantasy.mrugala.net/Greg%20Horn/

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

QUAL A "FUNÇÃO" DA LITERATURA?

Carta ao Professor

por Ricardo Azevedo.


Somos condicionados, pela cultura utilitária que nos rodeia e sufoca, a acreditar que tudo tem uma função. Trata-se de uma crença equivocada e desumana. As coisas mais importantes da vida costumam ser justamente aquelas sobre as quais não cabe falar em função. Qual a função da amizade? Qual a função do sublime? Qual a função da saudade? Qual a função da vida?

Embora não faça sentido falar em “função” da literatura de ficção e poesia, sua importância é indiscutível:

1. Através da literatura entramos em contato com temas humanos complexos, ausentes dos livros utilitários, mas essenciais: a paixão, a busca do autoconhecimento, a angústia, a luta do velho contra o novo, o ciúme, a confusão entre a realidade e a fantasia, a mentira, a existência de diferentes pontos de vista sobre um mesmo assunto etc.

2. Narrativas construídas acumulativamente, com começo, meio e fim, podem nos ensinar a elaborar o processo, portanto, o sentido de nossa própria vida. Para Varga Llosa a ficção “...goza daquilo que a vida vivida – em sua vertiginosa complexidade e imprevisibilidade – sempre carece: uma ordem, uma coerência, uma perspectiva, um tempo fechado que permite determinar a hierarquia das coisas e dos fatos, o valor das pessoas, os efeitos e as causas, os vínculos entre ações.”

3. A literatura, principalmente através da poesia, possibilita o contato direto com o discurso subjetivo. Compare o texto didático e impessoal “ A água ferve a 100º com “uma parte de mim/ é todo mundo/ Outra parte é ninguém/ fundo sem fundo/ uma parte de mim/ é multidão/ outra parte estranheza/ solidão(...)” *

4. Pode trazer personagens paradoxais, por vezes incoerentes, mergulhadas num constante processo de amadurecimento, lutando para construir o significado da própria vida ( e evitar a visão idealizada do homem, ou seja, sua apresentação com um ser esquemático, lógico e previsível, sem conflitos e sem humanidade).

A literatura tem outras ótimas qualidades, mas o espaço é curto. O contato com temas da vida concreta e com vozes diferentes das nossas pode, por meio da identificação, construir um extraordinário recurso de humanização e sociabilização. Em tempos de consumismo sem limites, individualismo doentio e coisificação do homem – com efeitos nefastos numa sociedade desequilibrada como a nossa – a leitura de ficção e poesia pode ter um papel regenerador e insubstituível.


  • “Traduzir-se” de Ferreira Gullar, Toda Poesia, Rio de Janeiro, José Olimpio, 1991


Ricardo Azevedo é escritor, ilustrador e pesquisador. É autor, entre outros, do premiado livro Um Homem no Sótão (Ed. Ática, 2004) www.cartanaescola.com.br

quarta-feira, 15 de julho de 2009

TERCEIRIZAÇÃO DA EDUCAÇÃO: CÂNCER NO SEIO DA SOCIEDADE MODERNA?

A vida me ensinou muita coisa e uma delas foi aprender a ler o que não está escrito. Os anos me legaram mais que cabelos brancos. Com o tempo aprendi a importância de tirar lições das mais diversas situações, mesmos que sejam situações, aparentemente, inaproveitáveis e todo o lucro auferido seja apenas a certeza de que aquilo não merece ser repetido.

Um incidente qualquer, por mais banal que possa parecer à maioria das pessoas, pode ser excelente combustível para um cronista, assim como uma nesga de luz, vazada por entre as frestas de uma velha janela de madeira pode iluminar a mente de um poeta. Do mesmo modo, a curva de um rio ou o olhar triste de uma criança pode encher de cores uma tela branca sujeita a emoção de um pintor. Embora muitos não percebam, a vida é assim. Tudo pode ser matéria nas mãos do artista.

Entretanto, poetizar nem sempre é indolor, assim como nem sempre as contemplações são matérias primas de arte. Aprende-se muito com a dor, com o erro e também com o simples ato de observar.

Minha avó era analfabeta, não sabia escrever, mas sabia ler as coisas que não estavam escritas em papel. Em contrapartida, em minha vida profissional, já trabalhei com chefes pós-graduados, mas incapazes de perceberem qualquer coisa além das encardidas letras dos manuais. Somente o tempo me trouxe a serenidade de compreender que a vida é uma escola que precede a escola.

Hoje, por exemplo, eu tive uma aula importante. Minha esposa me pediu que a levasse ao centro da cidade a fim de comprar algumas coisinhas. Tentei persuadi-la a ir a um dos Shoppings da nossa capital, como ela mesma sempre prefere, mas desta vez ela foi enfática ao dizer que queria visitar algumas das lojinhas que ficam ali no centro de Goiânia, mais precisamente nas proximidades da Avenida Goiás com a Avenida Paranaíba, próximo ao mercado aberto. Como discutir com alguém que tem, em si, um parque de diversões à nossa disposição, mas também tem TPM? Lá fomos nós. A propósito, o mercado aberto deveria mudar de nome. Eu o batizaria, sem medo de errar, de “inferno a céu aberto”. Se Dante Alighieri o tivesse conhecido, certamente o teria mencionado na sua obra “A Divina Comédia”.

No princípio do tour, eu até que me esforcei para acompanhá-la. Comecei a olhar as alguns objetos, mas, antes de finalizar a primeira dezena de lojinhas, pedi arrego. Preferi ficar do lado de fora, fazendo papel de segurança. Melhor assim, pensei, porque as mulheres não são práticas como nós. Quando elas dizem querer um sapato, olham bolsas, lenços, roupas, bijuterias, olham tudo como se fossem comprar o conjunto. Na verdade estão apenas conjecturando as duas mil setecentos e trinta e nove possibilidades de combinações de um acessório com o outro, inclusive com aquele esquecido no fundo da gaveta, que todas possuem em casa e que dificilmente usam. Os maridos atentos sabem do que eu estou falando.

Por isso, seria extremamente proveitoso se todo centro comercial criasse um cantinho para os maridos, como os que já existem em alguns eventos direcionados ao público feminino. Bastariam alguns sofás, uma TV de tela plana com, no mínimo, vinte e nove polegadas, ligada a um canal fechado de esportes ou notícias e cafezinho. Coisas simples, pois não somos exigentes. A grande vantagem é que assim as mulheres teriam mais de tempo e ainda se livrariam da incomoda sombra de companheiros mal humorados.

Como ali na Avenida Goiás, próximo ao inferno a céu aberto, isso é utopia, comecei a observar as pessoas que passavam. E não eram poucas. Uma das primeiras lições do dia, depois do exercício de paciência, foi que a maioria das pessoas não existe no mundo real. São personagens tipológicas oriundas do cinema fantástico ou dos comerciais de TV. Elas se misturam com a população, fazem amizades, casam-se, tem filhos e, sem serem notadas, passam a fazer parte das comunidades. Nos longos minutos que ali fiquei, em catarse, vi muitos que, provavelmente, participaram daquele clip famoso, thriller, do inigualável alienígena Michael Jackson.

Entretanto, as lições mais importantes do dia brotaram da minha inquietação ao assistir algumas cenas comuns, porém inaceitáveis, de prática de maus hábitos. Particularmente, penso que muitos maus hábitos, que afetam a terceiros, deveriam ser considerados crimes ou, no mínimo, uma contravenção penal. A pessoa flagrada na prática criminosa pagaria multa e/ou cumpriria pena alternativa.

Naquela oportunidade, assisti um grande desfile de pessoas jogando lixo no chão, em via pública, com a mesma naturalidade com que respiravam. Foram copos descartáveis, guardanapos usados para segurar aquela coxinha pingando gordura adquirida no quiosque da esquina e devorada durante a caminhada, folhetos de propagandas, embalagem de salgadinhos industrializados, tipo Skiny, ótimos para serem consumidos por aqueles que não amamos. Evidentemente presenciei exceções, mas os deprimentes flagrantes são foram poucos.

Um grande número de pessoas desconhece a função de uma lixeira, ou simplesmente não tem paciência para tentar encontrar alguma, pois o poder público também não ajuda muito quando não faz sua parte, que é instalar lixeiras suficientes nos locais públicos.

Dentre os arremessadores de lixo, destaco os arremessadores de tocos de cigarros. Não pelo tamanho do objeto, mas pelo ato ritualístico. Os tabagistas assumidos, quando estão finalizando uma fumada, dão um último trago como se estivessem tendo um orgasmo. Logo em seguida, inclinam a cabeça em um ângulo de, aproximadamente, quarenta e cinco graus, entortam o canto da boca para o lado e lançam no ar um canudo de fumaça mal cheirosa. Finalizam o ritual com um gesto quase olímpico: prendem o toco aceso entre o polegar estendido e o dedo médio curvado na direção do primeiro. O segundo dedo se solta bruscamente, afastando-se do polegar e impulsionando o objeto, até então, preso que é lançado pela catapulta digital em algum lugar qualquer, a poucos metros de distância.

Finalmente, a lição mais contundente e repugnante. Cenas explícitas de cuspidas ou escarradas em locais públicos. O praticante deste mau hábito, ao ser flagrado, deveria receber, no ato, um papel toalha e então lhe seria solicitado a limpar os dejetos produzidos no íntimo de seu ser e lançados na calçada. O autor reincidente, após o constrangimento da limpeza pública, seria encaminhado à DDC, Delegacia de Defesa da Cidadania, para a aplicação das penalidades cabíveis.

Como afirmei no início deste texto, a vida ensina muita coisa. É sabido que nas escolas tradicionais, as lições são disponibilizadas a todos, mas o aprendizado é algo individual e nem sempre as informações geram conhecimento. Uma mesma sala de aula pode abrigar, simultaneamente, futuros profissionais respeitados e futuros bandidos procurados.
Em face desse dilema, pergunto-me: a escola formal tem conseguido formar cidadãos por meio da transmissão de saberes históricos-culturais institucionalizados? Eu mesmo respondo. Sim e não. E este paradoxo me inquieta.

Os pais têm negligenciado a educação de seus filhos, terceirizando-a a avós, babás, mas, sobretudo aos professores. Tenho conhecimento de que a conquista da cidadania, adquirida por meio de lições de ética, moral e bons modos, ministradas em salas de aulas, é um ideal belíssimo, mas as lições extraclasse, aplicadas no cotidiano, entre os membros da família, podem ser muito mais eficientes. Aquilo que minha avó referia-se como sendo “educação de berço”.
Por isso, creio que a terceirização da educação dos filhos por parte das famílias, principalmente por parte dos pais, aliada à ineficiência do Estado, sobretudo no ensino público, tem criado tantos seres irreconhecíveis que não seria exagero compará-la a um câncer no seio da sociedade moderna.

*Almáquio Bastos é Escrivão Policial Civil e Escritor.

sábado, 11 de julho de 2009

SEGURANÇA PÚBLICA É ASSUNTO NA ASSEMBLÉIA LEGISLATIVA DE GOIÁS

O deputado Mauro Rubem(PT-GO), em sessão ordinária no dia 06/07/2009 na Assembléia Legislativa, colocou em debate o afastamento do Major Araújo da presidência da Associação do Oficiais da Polícia Militar e Bombeiros Militar de Goiás e também mencionou a greve dos Policiais Civis. Particularmente, não simpatizo com o deputado, mas o parabenizo pela iniciativa, sobretudo pela menção feita por ele da necessidade, urgente, de se "abrir um diálogo de conversação" para resolver estas questões relativas à Segurança Pública. Assista o vídeo, na íntegra no youtube, bem como saiba mais sobre o assunto no blog do Major Araújo.


http://www.youtube.com/watch?v=T97z-eDloXQ

http://majoraraujo.com.br/

04 de janeiro de 2025